quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Antropologia Urbana - Alba Zaluar: violência, pobreza, Cidade de Deus etc.











Entrevista de Alba Zaluar concedida à Folha de São Paulo em 12 de julho de 2004

Hipermasculinidade leva jovem ao mundo do crime

Antônio Gois

De alguém que estuda há mais de 20 anos o fenômeno da violência urbana brasileira, seria lógico esperar pessimismo -nesse período, os números da criminalidade não pararam de crescer e de assustar quem acompanha o problema. Esse não é, entretanto, o caso da antropóloga Alba Zaluar.

Em entrevista à Folha, a pesquisadora, uma das primeiras a estudar a infiltração do narcotráfico nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, disse que é possível superar o problema da violência no Brasil com mais facilidade do que, por exemplo, nos Estados Unidos. "Eu diria que temos motivos para otimismo porque não somos um país de guerreiros. Nos Estados Unidos, as vizinhanças se organizaram em gangues. No Brasil, elas se organizaram em blocos de Carnaval e em escolas de samba. Isso é uma baita diferença", afirma a antropóloga. Zaluar refuta a idéia de que a pobreza e a desigualdade sejam as principais responsáveis pela violência nas grandes cidades. "Se a desigualdade explicasse a violência, todos os jovens pobres entrariam para o tráfico. Fizemos um levantamento na Cidade de Deus [conjunto habitacional favelizado, na zona oeste do Rio] e concluímos que apenas 2% da população de lá está envolvida com o crime. Como explicar que a maioria das pessoas não se envolveu com o tráfico? Certamente tem algo a mais aí", diz ela.

Segundo Zaluar, esse "algo a mais" está ligado a um "etos da hipermasculinidade", que leva alguns jovens do sexo masculino a se arriscarem no tráfico de drogas em busca do reconhecimento por meio da imposição do medo. "É preciso fazer políticas públicas mais eficientes e focadas nos jovens que estão nessa fase difícil da adolescência, para que eles possam construir uma imagem civilizada de homem, que tenha orgulho de conter a sua violência e respeitar o adversário, competindo segundo as regras estabelecidas", afirma.

Alba Zaluar é coordenadora do Nupevi (Núcleo de Pesquisa das Violências) da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). A pesquisa dirigida por ela na Cidade de Deus, nos anos 80, deu origem ao seu livro "A Máquina e a Revolta" (editora Brasiliense). Integrante na época de sua equipe de pesquisadores, Paulo Lins escreveu "Cidade de Deus", origem do filme de mesmo nome. Nem o livro nem o longa-metragem agradam à antropóloga, que está lançando neste mês um novo livro sobre a violência ("Integração Perversa").

A Folha tentou entrar em contato com o escritor Paulo Lins para que ele tivesse a oportunidade de responder às críticas da antropóloga Alba Zaluar ao seu livro "Cidade de Deus". Na tarde de sexta-feira, foi enviada uma mensagem para o e-mail do escritor, mas não houve resposta até o fechamento desta edição. Nos números fornecidos pela assessoria de imprensa da Companhia das Letras (editora que publicou "Cidade de Deus"), não foi possível deixar recado para Lins.

Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista.

Folha - A violência nas regiões metropolitanas brasileiras aumentaram muito nos últimos anos. Por que, apesar disso, a senhora diz que temos motivos para otimismo? Alba Zaluar - Eu diria que temos motivos para otimismo porque não somos um país de guerreiros. Nunca nos envolvemos, por exemplo, em guerras mundiais. Nossos heróis são jogadores de futebol, sambistas e artistas. Somos um país que valoriza muito o espetáculo e que reconhece que o talento pode aparecer em qualquer classe social. Nos Estados Unidos, o [diretor Martin] Scorsese nos mostra [no filme "Gangues de Nova York"] que as vizinhanças se organizaram, desde o século 19, em gangues. No Brasil, as vizinhanças se organizaram em blocos de Carnaval e escolas de samba. Isso é uma baita diferença. Até hoje, os chefes do tráfico no Brasil ganham apelidos no diminutivo, como Fernandinho ou Escadinha. Nos Estados Unidos, os apelidos são de animais ferozes ou nomes de guerreiros africanos. Esse é um indicativo de que nosso etos guerreiro não é tão forte quanto o de lá. Isso mostra que é possível superá-lo com mais facilidade.

Folha - Então por que estamos tão violentos? Zaluar - É preciso ter políticas públicas para superar isso. Houve no Brasil um fraquejo institucional do Estado. É preciso mudar nossa polícia e o Judiciário para que a impunidade diminua, especialmente nas classes mais privilegiadas. É preciso, por exemplo, achar uma maneira de valorizar o profissionalismo na polícia. Hoje, os governos acabam indicando os delegados e chefes de batalhão por critérios políticos. Os Estados têm que acabar com o bairrismo e trabalhar em conjunto.

Folha - Em que período a senhora identifica o início desse fraquejo do Estado? Zaluar - No que diz respeito à polícia, isso é claro durante a ditadura militar [1964-1985]. Nesse período, tudo foi permitido à polícia. A imprensa estava amordaçada e ninguém podia denunciar abusos. A maneira de combater a corrupção é criar mecanismos internos de controle e não amordaçar ninguém. É preciso ter mecanismos por meio dos quais as pessoas atingidas pela violência policial possam fazer reclamações sem temer pela própria vida.

Folha - Pobreza e desigualdade não são também elementos fundamentais para explicar a violência? Zaluar - A idéia do nosso projeto no Nupevi é ultrapassar a argumentação simplista do determinismo econômico que faz com que se pense que toda a questão da violência e da criminalidade possa ser explicada apenas pela pobreza e pela desigualdade. Trabalhamos com a idéia de um modelo de complexidade. Levamos em conta vários elementos que se arranjam de uma determinada forma que acabam provocando essa combustão. Estamos falando apenas que a pobreza, só, não explica o fenômeno. É bom lembrar que esse é um fenômeno que aparece na década de 70. Não é verdade dizer que isso surgiu somente agora. Ao determinar a pobreza como causa da violência, estamos dando um peso que ela não tem e facilitando a criminalização dos pobres, porque leva à conclusão de que são eles os criminosos. Isso justificaria o fato de termos 90% de pobres entre nossos prisioneiros, quando sabemos que há juízes, banqueiros, comerciantes, deputados, senadores e governantes envolvidos no mundo da atividade criminosa.

Folha - Mas a existência de um contingente grande de jovens pobres que convivem diariamente com a desigualdade não é um fator que facilita a entrada deles no tráfico de drogas? Zaluar - Não estamos dizendo que a pobreza e a desigualdade não têm nada a ver com o problema. Há várias pesquisas que mostram que os Estados mais pobres do Brasil são também os menos violentos. Londrina é uma cidade riquíssima para os padrões brasileiros, mas é violenta. Campinas também. Nos Estados, percebe-se também que os municípios mais pobres são menos violentos. Uma parte da explicação dessa questão está no fato de as regiões metropolitanas atraírem mais imigrantes. Essa concentração de muita gente nessas regiões sem emprego e sem alternativa facilita a atração para as atividades do tráfico. Mas não são todos os que são atraídos, e é aí que está o mistério. Se a desigualdade explicasse a violência, todos os jovens pobres entrariam para o tráfico. Fizemos um levantamento na Cidade de Deus e concluímos que apenas 2% da população de lá está envolvida com o crime. Como explicar que a maioria das pessoas não se envolveu com o tráfico? Certamente tem algo a mais aí.

Folha - E o que seria esse algo a mais? Zaluar - Parece-me o fato de que alguns se deixam seduzir por uma imagem da masculinidade que está associada ao uso da arma de fogo e à disposição de matar, ter dinheiro no bolso e se exibir para algumas mulheres. A partir de entrevistas que minha equipe fez com jovens traficantes, definimos isso como um etos da hipermasculinidade. Esse é um fenômeno que está sendo muito estudado nos EUA e na Europa e diz respeito a homens que têm alguma dificuldade de construir uma imagem positiva de si mesmos. Precisam da admiração ou do respeito por meio do medo imposto aos outros. Por isso se exibem com armas e demonstram crueldade diante do inimigo.

Folha - Como combater a construção dessa imagem? Zaluar - É preciso fazer políticas públicas mais eficientes e focadas nos jovens que estão nessa fase difícil da adolescência, para que eles possam construir uma imagem civilizada de homem, que tenha orgulho de conter a sua violência e respeitar o adversário, competindo segundo as regras estabelecidas, como acontece nas competições esportivas e na disputa dos desfiles de escolas de samba. No último capítulo do meu novo livro, eu relato a experiência que tentei desenvolver em escolas públicas do Rio. Conseguimos ter resultados positivos ao desenvolver o projeto Mediadores da Paz, que tentava mostrar aos jovens a importância de negociar os conflitos por meio das palavras e como isso podia trazer para eles respeito próprio e das outras pessoas. Nesse projeto, incentivávamos jovens a mediar conflitos entre colegas.

Folha - A senhora faz duras críticas ao livro e ao filme "Cidade de Deus", mas eles não retratam bem essa questão da construção do etos da hipermasculinidade? Zaluar - O Zé Pequeno [um dos principais personagens do filme] seria um exemplo dessa hipermasculinidade, mas, na minha opinião, o problema de "Cidade de Deus" é muito mais sério. Em primeiro lugar, o Paulo Lins fez o livro sem consultar as pessoas envolvidas. A pesquisa acadêmica é uma coisa séria. Eu emprestei a ele toda a pesquisa que fizemos na Cidade de Deus. Esse material tinha o depoimento do único sobrevivente da guerra [entre traficantes] retratada no filme, que é o Ailton Batata, que aparece no romance com o nome de Sandro Cenoura. Além disso, há uma série de impropriedades no romance. Nunca existiu, por exemplo, aquele bando de meninos ainda com dente de leite dando tiro nas pessoas. Isso é mentira, e é muito sério porque cria uma imagem sobre as crianças que vivem nesses locais que não é verdadeira. A própria história do Zé Pequeno é contada como se ele já tivesse nascido ruim. É uma volta à teoria do criminoso nato, que, do ponto de vista da criminologia, já está completamente superada.

Folha - Como a senhora vê a forma como a imprensa tem tratado a questão da violência urbana? Zaluar - Estou menos preocupada hoje do que já estive. Já não vejo mais tantas fotos de traficantes e de matadores colocadas nas primeiras páginas dos jornais com destaque enorme. Isso dá fama a essas pessoas e é mais uma atração para os jovens em busca dessa fama. Os traficantes já são conhecidos pela sua dureza, mas, quando a foto deles aparece nos jornais, isso contribui mais ainda para essa fama. Infelizmente, os jornais ainda continuam dando nomes, o que contribui para a permanência do círculo vicioso de atração dos jovens.

Folha - A senhora é uma das especialistas mais procuradas pelos jornalistas para comentar casos de violência. Os jornais não acabam falando sempre com os mesmos especialistas? Zaluar - Recentemente, fui procurada para comentar a rebelião em Benfica [que resultou na morte de 30 detentos e de um agente penitenciário na casa de custódia da zona norte do Rio, em maio]. Disse ao jornalista que não sabia nada sobre esse assunto e indiquei outros especialistas. Quase sempre aparecem as mesmas pessoas nos jornais. Em alguns casos, é gente que entende muito pouco do assunto e diz qualquer coisa só para aparecer. Isso acaba alimentando essa "Darlene" que existe dentro dos intelectuais. Tem que haver seriedade no tratamento dessa questão.

Fonte: Folha de São Paulo, em 12 de julho de 2004

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Antropologia Urbana - Vídeos

ASSISTA AO VÍDEO
Conferência Inaugural Profa. Dra. Mariza Peirano (UnB)
Etnografia, ou a teoria vivida [e outras sobre Antropologia Urbana]

Universidade de São Paulo
VI GRADUAÇÃO EM CAMPO
Seminários de Antropologia Urbana
de 20 a 23 de agosto de 2007

http://www.n-a-u.org/2007.html/2007.html

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

e-list - Antropologia no/do Brasil

CONVITE PARA SUBSCREVER A LISTA ANT-BRA

A Ant-Bra convida antropologos e outros cientistas sociais de
nivel de pos-graduacao a subscrever a lista.

Atendendo a 600 subscritos internacionalmente, a lista dedica-se
'a difusao de eventos, noticias, empregos, bolsas de pesquisa, e
informativos (ABA, ANPOCS, FGV) de interesse direto da
antropologia brasileira, brazilianista e latino americana.
Fundada em 1998, a Ant-Bra e' reconhecida com links nas websites
da ABA, AAA, dentre outras organizacoes internacionais.

Para subscrever:
https://listhost.uchicago.edu/mailman/listinfo/ant-bra

Outras questoes, favor contactar Anthony D'Andrea (moderador da
Ant-Bra): a-dandrea@uchicago.edu

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Ant-Bra - E-forum de Antropologia do/no Brasil
Para subscrever:
https://listhost.uchicago.edu/mailman/listinfo/ant-bra

domingo, 18 de novembro de 2007

ABA - 26ª Reunião Brasileira de Antropologia




(informações detalhadas)
GT 1 - Os sentidos sociais do dinheiro: perspectivas etnográficasCoordenador: Omar Ribeiro Thomaz (unicamp - ifch), federico neiburg (PPGAS - UFRJ),
GT 2 - Imigração em contextos nacionais e internacionaisCoordenador: Igor José de Renó Machado (UFSCAR), Maria Catarina Chitolina Zanini (UFSM),
GT 3 - Os Quilombos para além dos laudos – conflitos, organização e políticasCoordenador: José Maurício Arruti (PUC-Rio e CEBRAP), José Augusto Laranjeira Sampaio (UNEB e ANAÍ),
GT 4 - O fazer, o ler e o escrever imagens e sons e suas apresentações e representações na narrativa etnográfica Coordenador: marco antonio gonçalves (UFRJ), Sylvia Cauiby Noaves (usp),
GT 5 - Cidadania e Territorialização étnica: novos e velhos sujeitos do direitoCoordenador: Ricardo Cid Fernandes (UFPR), Cintia Beatriz Muller (COHRE),
GT 6 - O Islã na Contemporaneidade: perspectivas identitárias/alteridade, migratórias e percepções do sensívelCoordenador: Francirosy Campos Barbosa Ferreira (ESP), Claudia Voigt Espinola (UFSC),
GT 7 - Povos Indígenas e Fronteiras Internacionais: uma perspectiva antropológicaCoordenador: Stephen Grant Baines (UnB), Bruce Granville Miller (UBC),
GT 8 - Substancias Psicoativas: Cultura e PolíticaCoordenador: Edward MacRae (UFBA), Rodrigo de Azeredo Grünewald (UFCG),
GT 9 - Desafios Contemporâneos para uma Antropologia da Educação: ensino, pesquisa e políticas de igualdade Coordenador: Neusa Maria Mendes de Gusmão (UNICAMP), Janirza Cavalcante da Rocha Lima (FUNDAJ),
GT 10 - Antropologia do EstadoCoordenador: Ciméa Barbato Bevilaqua (UFPR), Piero de Camargo Leirner (UFSCar),
GT 11 - Rupturas na vida cotidiana: saberes e fazeres antropológicos em contextos de riscos, desastres e medos sociais. Coordenador: Cornelia Eckert (UFRGS), Telma Camargo da Silva (UFG),
GT 12 - Antropologia, Engajamento Militante e Participação PolíticaCoordenador: Wilson José Ferreira de Oliveira (UFPEL), Elisa Guaraná de Castro (UFRRJ),
GT 13 - Imagens e Sociedades: balanço crítico das possibilidades analítico-interpretativas na antropologia visualCoordenador: Edgar Teodoro da Cunha (FGV),
GT 14 - Direitos Humanos, Práticas de Justiça e Diversidade CulturalCoordenador: Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer (FFLCH - USP), Patrice Schuch (UFRGS),
GT 15 - Cultura popular, patrimônio imaterial e cidadesCoordenador: Sérgio Ivan Gil Braga (UFAM), Luciana Carvalho (IPHAN),
GT 16 - TEMAS ATUAIS RELACIONADOS À QUESTÃO DE GÊNERO ENTRE OS POVOS INDÍGENASCoordenador: Vanessa Rosemary Lea (IFCH), Levi Marques Pereira (UFGD),
GT 17 - Tecnologias de escrutínio do corpo – Uma antropologia das “novas” ciências da vida Coordenador: Núbia Bento Rodrigues (UFBA), Annette Leibing (UdM),
GT 18 - Arquivos e Histórias da Antropologia Brasileira: tradições visíveis e invisíveisCoordenador: Christina de Rezende Rubim (UNESP), Antônio Carlos Motta de Lima (UFPE),
GT 19 - Sistemas de Justiça Criminal e Segurança Pública, em uma perspectiva comparada: processos de administração institucionalCoordenador: Roberto Kant de Lima (UFF), Sofia Tiscornia (UBA),
GT 20 - A composição do social: coletando humanos e não-humanosCoordenador: Eduardo Viana Vargas (UFMG), Guilherme José da Silva e Sá (UFSM),
GT 21 - Percursos de Saúde no Brasil de Hoje: Religião, Corpo e Saúde Coordenador: Raymundo Heraldo Maués (UFPA), Bartolomeu Tito Figueiroa de Medeiros (UFPE),
GT 22 - Antropologia e Turismo: diferença, desigualdade e processos reflexivosCoordenador: Rafael José dos Santos (UCS), Margarita Barretto (CNPq),
GT 23 - Agentes de Diálogos e Participação Indígena nas Políticas PúblicasCoordenador: MÁRCIA MARIA GRAMKOW (GTZ), Maria Helena Ortolan Matos (UFAM),
GT 24 - Religião, gênero, sexualidades e reproduçãoCoordenador: Emerson Alessandro Giumbelli (UFRJ), Maria Amelia Schmidt Dickie (UFSC),
GT 25 - Natureza, Corpo, SentidosCoordenador: Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ), Cynthia Andersen Sarti (UNIFESP),
GT 26 - Antropologia Feminista no Brasil? Reflexões e desafios de um campo em construçãoCoordenador: Alinne de Lima Bonetti (SPM), Miriam Steffen Vieira (UFRGS), Alinne de Lima Bonetti (SPM),
GT 27 - Identidades, Redes e Territorialidades no Espaço RuralCoordenador: Emília Pietrafesa de Godoi (UNICAMP), Marilda Aparecida de Menezes (UFCG),
GT 28 - PESCADORES E PESCARIAS: ESTADO DAS ARTES E PERSPECTIVASCoordenador: Andrea Ciacchi (UFPB), Ronaldo Joaquim da Silveira Lobão (UFF),
GT 29 - Perspectivas antropológicas sobre meio(s) ambiente(s): aportes teóricos, metodológicos e etnográficosCoordenador: Neide Esterci (UFRJ), Henyo Trindade Barretto Filho (IEB),
GT 30 - Antropologia Feminista no Brasil? Reflexões e desafios de um campo em construçãoCoordenador: Alinne de Lima Bonetti (SPM), Miriam Steffen Vieira (UFRGS), Alinne de Lima Bonetti (SPM),
GT 31 - “Diferenças e desigualdades na mídia: um olhar antropológico” Coordenador: Nara Maria Emanuelli Magalhães (UFRGS), Isabel Siqueira Travancas (FCRB),
GT 32 - Etnias e religiosidade: perspectivas políticas e cosmológicas Coordenador: Izabel Missagia de Mattos (UCG), Pablo Wright (UBA),
GT 33 - Antropologia e Gênero: a questão da subjetividadeCoordenador: Mara Coelho de Souza Lago (UFSC), Elisete Schwade (UFRN),
GT 34 - Narrativas e percepções nativas das relações de contato com os brancosCoordenador: Valéria Soares de Assis (UEM), Deise Lucy Oliveira Montardo (UFAM),
GT 35 - SABERES E PRÁTICAS DA ALIMENTAÇÃO: DESIGUALDADE, DIVERSIDADE E IDENTIDADECoordenador: SANDRA SIMONE QUEIROZ DE MORAIS PACHECO (UNEB), ESTHER Fernande Rose KATZ (IRD),
GT 36 - Da Aldeia ao Território – Inferências Arqueológicas sobre o EspaçoCoordenador: ANA PAULA DE PAULA LOURES DE OLIVEIRA (UFJF), CARLOS XAVIER DE AZEVEDO NETTO (UFPB),
GT 37 - SEXUALIDADES, CULTURAS ÉTNICAS/RACIAIS E IDENTIDADESCoordenador: Laura Moutinho (USP), Fabiano Gontijo (UFPI),
GT 38 - GT Antropologia do Mal.Coordenador: REGINA COELI MACHADO E SILVA (UNIOESTE), ANA LÚCIA MODESTO (UFMG),
GT 39 - O mesmo e o diverso nos cenários contemporâneosCoordenador: Edson Silva de Farias (UnB), Juliana Gonzaga Jayme (PUC_MG),
GT 40 - Políticas Públicas e Antropologia nas áreas de Direitos Humanos, Segurança Pública e ComunidadesCoordenador: Ana Paula Mendes de Miranda (ISP), Maria Victoria Pita (UBA),
GT 41 - Etnografias Urbanas:a casa, a rua e o bairro de uma perspectiva antropológicaCoordenador: Neiva Vieira da Cunha (UERJ), Wilma Marques Leitão (UFPA),
GT 42 - Articulações entre Gênero, Sexualidade, Raça e Classe na AntropologiaCoordenador: Zulmira Newlands Borges (UFSM), Jaqueline Ferreira (FIOCRUZ),
GT 43 - A Tarefa da Tradução Cultural em AntropologiaCoordenador: Priscila Faulhaber Barbosa (MPEG), Clarice Cohn (UFSCAR),
GT 44 - POVOS INDÍGENAS:DINÂMICA TERRITORIAL E CONTEXTOS URBANOSCoordenador: FABIO MURA (LACED), MARIA FATIMA ROBERTO MACHADO (UFMT),
GT 45 - Terapeutas, cuidadores e curadores populares: Uma interface entre Antropologia, cidadania e saúde popularCoordenador: Soraya Fleischer (CFemea), Carmen Susana Tornquist (UDESC),
GT 46 - Meio Ambiente, Gestão de Recursos Comuns e Políticas PúblicasCoordenador: Maristela de Paula Andradade (UFMA), Sueli Pereira Castro (UFMT),
GT 47 - Gênero, transnacionalização e migraçõesCoordenador: Gláucia de Oliveira Assis (UDESC), Adriana Gracia Piscitelli (UNICAMP),
GT 48 - Coleções, Museus e Patrimônios Coordenador: Regina Maria do Rego Monteiro de Abreu (UNIRIO), Manuel Ferreira Lima Filho (UCG),

Fichamento Melatti

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ – UECE
Centro de Humanidades
Curso de Ciências Sociais
Antropologia III
Anne Caroline Bento de Araújo Mendonça
Prof. Max Maranhão – sala 36
Horário M24AB


MELATTI, Julio Cezar. Antropologia no Brasil: Um Roteiro, 1983. Republicado no BIB 17, 1984: 3-52. Novamente republicado em O que se deve ler em Ciências Sociais no Brasil, vol. 3 (edição englobando BIB de nº 15 a nº 19). São Paulo: Cortez e ANPOCS, 1990: 123-211.


A PARTIR DOS ANOS 60

“Nos anos 60, a Etnologia começa a passar, no Brasil, sob vários aspectos, por significativas modificações.” (p.21)

“[...]Em 1957, também por iniciativa de Darcy Ribeiro, criou-se o “Curso de Formação de Pesquisadores Sociais” no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), que pretendia ser uma continuação e ampliação do anterior, conforme notícia veiculada no periódico deste órgão (Educação e Ciências Sociais, 1957). [...]” (p.21)

“...os cursos do Museu Nacional eram na época considerados como que de pós-graduação, embora não se regessem pela regulamentação que se consolidou posteriormente.[...]” (p.21)

“[...]Com a criação de mais outros cursos de pós-graduação, que vieram se acrescentar a este e ao que, havia muito, se mantinha na Universidade de São Paulo, como o da Universidade de Brasília (Cardoso de Oliveira, s.d.), o da UNICAMP e outros mais recentes, o número de etnólogos começou a crescer rapidamente, fazendo com que esses profissionais deixassem de constituir um velho grupo de amigos em que todos se conheciam. [..]” (p.21)

“Certos temas perdem o interesse, como os estudos de comunidade, substituídos por pesquisas de caráter mais regional, nas quais se examinam determinados problemas como o do campesinato, o dos assalariados rurais, dos trabalhadores urbanos, das frentes de expansão e pioneiras. A Antropologia Urbana se desenvolve, tratando primeiramente da migração rural-urbana e da vida nas favelas, para em seguida avançar no sentido das camadas médias, o comportamento desviante e as instituições totais. Começa a se formar interesse em torno da Antropologia Médica ou da Saúde.” (p.22)

“[...]Preocupações de caráter estruturalista e etno-científico substituem as interpretações funcionalistas. [...]” (p.22)

“O crescimento do número de etnólogos com boa formação se reflete nos cursos de graduação, onde passam a lecionar, e, conseqüentemente, no movimento editorial. Na década de 60 as editoras brasileiras começam a traduzir manuais estrangeiros de Antropologia...” (p.22)





“[...]O primeiro trabalho de grande fôlego sobre a Etnologia no Brasil, o de Mariza Gomes e Souza Peirano (1980), põe em foco sobretudo a obra e as idéias de alguns pesquisadores (Florestan Fernandes, Antonio Candido, Darcy Ribeiro, Roberto Cardoso de Oliveira, Roberto da Matta e Otávio Velho), cuja atividade começa no início ou no final do período anterior, continuando a influir ou a se desenvolver no atual.” (p.22)

Fricção Interétnica E Etnicidade

“...o emprego da noção de aculturação em alguns trabalhos implicava em conceder ao conceito de cultura atributos que contribuíam mais para obscurecer do que esclarecer as situações estudadas, seja considerando-o como independente das mentes dos membros das sociedades consideradas, agindo segundo leis próprias, seja confundindo-o com o conceito de sociedade.” (p.22-23)

“...uma consideração mais atenta da própria população civilizada que envolve as sociedades indígenas estudadas, indispensável para os estudos de fricção interétnica, contribuiu para conduzir o interesse para o campesinato não-indígena e as frentes de expansão e pioneiras.” (p.23)

“Os estudos de fricção também se voltaram para o exame do conflito de interesses entre determinadas populações indígenas e certas “frentes” não propriamente de caráter econômico, como missões e escolas.[...]” (p.23)

“Se os estudos de fricção interétnica focalizam sobretudo os aspectos econômicos, sociais e políticos do contato, a face ideológica do mesmo passou a ser examinada segundo as noções de identidade étnica, grupo étnico, etnia, que, embora vislumbradas no primeiro trabalho de Cardoso de Oliveira sobre os Tukúna, passaram a ser sistematicamente examinadas por ele após 1970, tarefa de que é exemplo seu volume Identidade, etnia e estrutura social (São Paulo, Pioneira, 1976).[...]” (p.23)

“A noção de etnia e aquelas que lhe são associadas implicam como que numa etno-sociologia do contato interétnico, ou seja, uma classificação dos grupos ou categorias sociais segundo os membros dos grupos em confronto e não a partir de uma classificação apriorística do pesquisador. Por isso, a familiaridade com estudos de classificação desenvolvidos pelo estruturalismo ou pela etnociência são de grande valia para o desempenho do pesquisador. [...]” (p.24)

“[...]Possivelmente, a noção de etnia talvez possa vir a fazer a ponte que não existia entre os estudos de aculturação, que envolviam índios e civilizados ou brasileiros e imigrantes, e os estudos de relações raciais, que contrapunham negros e brancos.[...]” (p.24)



“Os anos 70 foram marcados por um esforço, que continua a vigorar, de alguns etnólogos em colaborarem com os povos indígenas, pelos quais se interessam academicamente, na obtenção de soluções para seus problemas mais urgentes, como demarcação de terras, assistência médica, instrução, administração direta pelos índios de sua produção para mercado e outros. [...]” (p.24)

As Sociedades Indígenas Como Totalidades Socioculturais

“Neste período ganharam impulso os estudos sobre a estrutura social das sociedades indígenas. Essa nova fase se deve, em parte, ao trabalho de pesquisa que David Maybury-Lewis desenvolveu entre os Xavânte, a partir do final da década de 50, segundo os tópicos de interesse e de metodologia da Antropologia Social inglesa. Com base nessa experiência inicial, esse pesquisador desenvolveu um projeto referente aos índios do Brasil central, sobretudo da família lingüística Jê, para ser realizado por seus alunos de Harvard e, acoplado ao projeto “Estudo comparativo das sociedades indígenas do Brasil”, de Roberto Cardoso de Oliveira, por pesquisadores do Museu Nacional.[...]” (p.25)

“[...]Uma das contribuições de alguns desses trabalhos referentes aos Jê e grupos assemelhados foi a averiguação de que a noção de pessoa que mantêm é de fundamental importância para a compreensão de sua estrutura social...” (p.25)

“Nos anos 70, além de continuar o interesse pelos Jê, retoma-se a atenção por mais três áreas, o alto Xingu, o alto rio Negro e Roraima, sendo que as duas primeiras tinham sido estudadas no período anterior, nas suas características mais gerais, por Eduardo Galvão.[...]” (p.25)

“[...]No alto rio Negro, as pesquisas têm incidido principalmente no outro lado da fronteira, na Colômbia, mas são de muita importância para se compreender os índios do lado brasileiro, pois vivem segundo as mesmas duas grandes tradições: a dos índios das florestas (Makú) e a dos índios dos grandes rios (Tukâno Orientais e alguns Aruák).[...]” (p.26)

“Se a década dos 60 foi marcada por uma forte presença de alunos de doutorado norte-americanos, na dos 70 a eles se acrescentaram ingleses e franceses. [...]” (p.26)

“Os estudos de totalidades socioculturais indígenas mostram, neste período, uma tendência a passar do funcionalismo ou do estrutural-funcionalismo para uma abordagem mais estruturalista ou influenciada pela etnociência, dando importância, variável segundo os casos, às classificações mantidas, conscientemente ou não, pelos próprios índios. [...]” (p.26)

Mitologias E Ritual Como Sistemas Ativos

“Mas foi sem dúvida Claude Lévi-Strauss, com seus artigos sobre mitos e sobretudo os quatro volumes de suas Mythologiques (Paris, Plon, 1964, 1966, 1968 e 1971), que marcou uma reviravolta nos estudos de mitologia.[...]” (p.27)

“[..]Além de inspirar vários artigos sobre mitos tribais escritos no Brasil, as sendas abertas por Lévi-Strauss permitiram a Roberto da Matta analisar o conto sertanejo de Pedro Malasartes e mesmo, escapando ao âmbito do mito, abordar contos literários de Edgar Alan Poe e Guimarães Rosa. [...]” (p.27)

“Se os mitos indígenas levaram à produção de vários trabalhos, os ritos, que deles não se podem desligar, deram motivo à produção de livros...” (p.27)

“[...]Roberto da Matta tem tomado os ritos como uma porta de entrada para o conhecimento da sociedade brasileira; suas reflexões sobre o assunto estão bem representadas em Carnavais, malandros e heróis (Rio de Janeiro, Zahar, 1979). [...]” (p.27)

“A vitalidade dos ritos e dos mitos talvez se demonstre de maneira mais patente nos movimentos messiânicos. Apesar de seu caráter político, seus adeptos fazem deles participar personagens míticos ou rituais, ou seja, nesses momentos de crise ritos e mitos rompem as molduras em que são normalmente contidos.[...]” (p.28)

Estudos Regionais E Estudos Em Comunidade

“De certa maneira, os chamados “estudos de comunidade” do período anterior, muito criticados, foram substituídos pelos que poderíamos chamar de “estudos regionais”, um termo que não tem a divulgação do primeiro.[...]” (p.28)

“[...]A princípio dava a impressão de se ter fragmentado em um certo número de pesquisas individuais, mas duas áreas ganharam dos pesquisadores um interesse mais permanente: uma foi a zona da mata nordestina, de plantação de cana e produção de açúcar, nos estados de Paraíba, Pernambuco e Alagoas; a outra foi a área constituída pela margem oriental da Amazônia, ou seja, pelo leste do Pará, oeste do Maranhão e norte de Goiás, uma zona afetada por frentes de expansão e pioneiras de caráter diversificado.” (p.28)

“Uma terceira região onde começam a se concentrar pesquisas etnológicas e sociológicas é a constituída pelo leste e o norte de Mato Grosso e que envolve várias instituições e projetos. [...]” (p.29)

“A banda ocidental do Vale do rio São Francisco, na área fronteiriça entre Minas Gerais e Bahia, tem sido alvo de projetos abrigados pela Universidade de Brasília.[...]” (p.29)

“Também como estudo regional pode ser considerado o projeto desenvolvido no interior de Sergipe, a respeito da evolução das relações de trabalho, e que conjuga a pesquisa etnológica com a histórica. [...]” (p.30]

“Por outro lado, já existe uma série de estudos sobre temas específicos desenvolvidos, sem que estejam ligados a projetos mais amplos, em pequenas comunidades.[...]” (p.30)

“[...]Ora, apesar de todos tratarem de comunidades de pescadores, um simples deitar de olhos sobre seus temas nos mostra que poderiam ser incorporados a distintos estudos comparativos, juntamente com trabalhos sobre não-pescadores, sobre diversos assuntos: sistemas de classificação, Antropologia da Saúde, identidade étnica, reprodução social, estratégias de sobrevivência etc.” (p.30)

“A singularidade étnica de certas comunidades rurais também tem sido examinada em algumas pesquisas recentes, que oscilam entre os enfoques culturalista e etnicista. [...]” (p.31)

“Se os estudos de comunidade do período anterior foram objeto de várias apreciações, tanto por parte de alguns de seus realizadores como daqueles que não os achavam adequados para atingir os objetivos a que se propunham, os estudos regionais e os estudos em comunidades não parecem ter até agora suscitado nenhum comentário crítico.” (p.31)

Antropologia Urbana

“Durante a década dos 60 (para época anterior ver também Roger Bastide, 1955a) as pesquisas sobre cidade, a julgar pela bibliografia apresentada por Eunice Ribeiro Durham (1971, pp. 75-80), se concentravam sobre as migrações da área rural para a urbana e sobre diversos problemas referentes às favelas, focalizados segundo os ângulos da marginalidade, participação, urbanização e desenvolvimento, que permitiam integrar resultados de diferentes disciplinas (Durham, 1971, pp. 69-70).[...]” (p.31)

“[...]O tema da migração ainda perdura na passagem para a década seguinte, como é exemplo o trabalho de Cláudia Menezes desenvolvido em Anápolis (A mudança, Rio de Janeiro, Imago; Brasília, INL, 1976).[...]” (p.31)

“Parece haver modificações significativas na Antropologia Urbana ao se passar para a década dos 70. Uma delas é o crescente número de pesquisadores com formação em Etnologia que se ocupam dos fenômenos sociais que se dão no ambiente urbano.[...]” (p.32)

“[...]Além da Umbanda, a atenção se tem voltado para outras religiões de caráter evangélico e proselitista, como o Pentecostalismo, que muito tem se expandido nas áreas urbanas. [...]” (p.32)

“Os trabalhos que tratam das concepções a respeito do corpo, das classificações de doenças, de hábitos alimentares, enfim, de temas que vêm sendo englobados sob o título de Antropologia Médica ou da Saúde, parecem se concentrar em pequenas comunidades rurais, ou pequenas cidades cujos moradores estão voltados para as atividades rurais, ou em certos setores urbanos nos quais se contam muitos migrantes de origem rural.[...]” (p.32)
“[...]Próximo ao campo da Antropologia da Saúde e realizado na cidade, embora valha para um âmbito mais amplo, é a pesquisa sobre o nojo, de José Carlos Rodrigues (Tabu do corpo, Rio de Janeiro, Achiamé, 1979); recentemente o mesmo autor publicou outro trabalho, agora sobre a morte (Tabu da morte, Rio de Janeiro, Achiamé, 1983).[...]” (p.32)

“Boa parte dos trabalhos sobre desviantes, sobre a situação da mulher, envolvem as camadas médias urbanas. É digno de nota, com relação a estas, o estudo dos moradores de um edifício no bairro de Copacabana realizado por Gilberto Velho (A utopia urbana, Rio de Janeiro, Zahar, 1973).[...]” (p.33)

Artes E Artesanato

“A descrição de artefatos foi uma característica dos trabalhos dos etnólogos do começo do século, preocupados que estavam com a elaboração de mapas de distribuição geográfica, que lhes permitissem reconstituir as trajetórias da difusão cultural.[...]” (p.33)

“A Fundação Pró-Memória iniciou um projeto sobre a região Centro-Oeste, a princípio sob a direção de George Zarur, voltando-se primeiramente para coleta e estudo de artefatos entre alguns grupos indígenas da região; posteriormente passou, parece, para o estudo do artesanato na população sertaneja da mesma região.[...]” (p.33-34)

“O interesse dos etnólogos pela música não tem se restringido às sociedades indígenas, como mostram o trabalho de Julia de Almeida Levy sobre a música popular brasileira ou a pesquisa em andamento de Kilza Setti de Castro Lima sobre a música caiçara.” (p.34)

Fichamento Peirano

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ – UECE
Centro de Humanidades
Curso de Ciências Sociais
Antropologia III
Anne Caroline Bento de Araújo Mendonça
Prof. Max Maranhão – sala 36
Horário M24AB


MELATTI, Julio Cezar. Antropologia no Brasil: Um Roteiro, 1983. Republicado no BIB 17, 1984: 3-52. Novamente republicado em O que se deve ler em Ciências Sociais no Brasil, vol. 3 (edição englobando BIB de nº 15 a nº 19). São Paulo: Cortez e ANPOCS, 1990: 123-211.


A PARTIR DOS ANOS 60

“Nos anos 60, a Etnologia começa a passar, no Brasil, sob vários aspectos, por significativas modificações.” (p.21)

“[...]Em 1957, também por iniciativa de Darcy Ribeiro, criou-se o “Curso de Formação de Pesquisadores Sociais” no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), que pretendia ser uma continuação e ampliação do anterior, conforme notícia veiculada no periódico deste órgão (Educação e Ciências Sociais, 1957). [...]” (p.21)

“...os cursos do Museu Nacional eram na época considerados como que de pós-graduação, embora não se regessem pela regulamentação que se consolidou posteriormente.[...]” (p.21)

“[...]Com a criação de mais outros cursos de pós-graduação, que vieram se acrescentar a este e ao que, havia muito, se mantinha na Universidade de São Paulo, como o da Universidade de Brasília (Cardoso de Oliveira, s.d.), o da UNICAMP e outros mais recentes, o número de etnólogos começou a crescer rapidamente, fazendo com que esses profissionais deixassem de constituir um velho grupo de amigos em que todos se conheciam. [..]” (p.21)

“Certos temas perdem o interesse, como os estudos de comunidade, substituídos por pesquisas de caráter mais regional, nas quais se examinam determinados problemas como o do campesinato, o dos assalariados rurais, dos trabalhadores urbanos, das frentes de expansão e pioneiras. A Antropologia Urbana se desenvolve, tratando primeiramente da migração rural-urbana e da vida nas favelas, para em seguida avançar no sentido das camadas médias, o comportamento desviante e as instituições totais. Começa a se formar interesse em torno da Antropologia Médica ou da Saúde.” (p.22)

“[...]Preocupações de caráter estruturalista e etno-científico substituem as interpretações funcionalistas. [...]” (p.22)

“O crescimento do número de etnólogos com boa formação se reflete nos cursos de graduação, onde passam a lecionar, e, conseqüentemente, no movimento editorial. Na década de 60 as editoras brasileiras começam a traduzir manuais estrangeiros de Antropologia...” (p.22)





“[...]O primeiro trabalho de grande fôlego sobre a Etnologia no Brasil, o de Mariza Gomes e Souza Peirano (1980), põe em foco sobretudo a obra e as idéias de alguns pesquisadores (Florestan Fernandes, Antonio Candido, Darcy Ribeiro, Roberto Cardoso de Oliveira, Roberto da Matta e Otávio Velho), cuja atividade começa no início ou no final do período anterior, continuando a influir ou a se desenvolver no atual.” (p.22)

Fricção Interétnica E Etnicidade

“...o emprego da noção de aculturação em alguns trabalhos implicava em conceder ao conceito de cultura atributos que contribuíam mais para obscurecer do que esclarecer as situações estudadas, seja considerando-o como independente das mentes dos membros das sociedades consideradas, agindo segundo leis próprias, seja confundindo-o com o conceito de sociedade.” (p.22-23)

“...uma consideração mais atenta da própria população civilizada que envolve as sociedades indígenas estudadas, indispensável para os estudos de fricção interétnica, contribuiu para conduzir o interesse para o campesinato não-indígena e as frentes de expansão e pioneiras.” (p.23)

“Os estudos de fricção também se voltaram para o exame do conflito de interesses entre determinadas populações indígenas e certas “frentes” não propriamente de caráter econômico, como missões e escolas.[...]” (p.23)

“Se os estudos de fricção interétnica focalizam sobretudo os aspectos econômicos, sociais e políticos do contato, a face ideológica do mesmo passou a ser examinada segundo as noções de identidade étnica, grupo étnico, etnia, que, embora vislumbradas no primeiro trabalho de Cardoso de Oliveira sobre os Tukúna, passaram a ser sistematicamente examinadas por ele após 1970, tarefa de que é exemplo seu volume Identidade, etnia e estrutura social (São Paulo, Pioneira, 1976).[...]” (p.23)

“A noção de etnia e aquelas que lhe são associadas implicam como que numa etno-sociologia do contato interétnico, ou seja, uma classificação dos grupos ou categorias sociais segundo os membros dos grupos em confronto e não a partir de uma classificação apriorística do pesquisador. Por isso, a familiaridade com estudos de classificação desenvolvidos pelo estruturalismo ou pela etnociência são de grande valia para o desempenho do pesquisador. [...]” (p.24)

“[...]Possivelmente, a noção de etnia talvez possa vir a fazer a ponte que não existia entre os estudos de aculturação, que envolviam índios e civilizados ou brasileiros e imigrantes, e os estudos de relações raciais, que contrapunham negros e brancos.[...]” (p.24)



“Os anos 70 foram marcados por um esforço, que continua a vigorar, de alguns etnólogos em colaborarem com os povos indígenas, pelos quais se interessam academicamente, na obtenção de soluções para seus problemas mais urgentes, como demarcação de terras, assistência médica, instrução, administração direta pelos índios de sua produção para mercado e outros. [...]” (p.24)

As Sociedades Indígenas Como Totalidades Socioculturais

“Neste período ganharam impulso os estudos sobre a estrutura social das sociedades indígenas. Essa nova fase se deve, em parte, ao trabalho de pesquisa que David Maybury-Lewis desenvolveu entre os Xavânte, a partir do final da década de 50, segundo os tópicos de interesse e de metodologia da Antropologia Social inglesa. Com base nessa experiência inicial, esse pesquisador desenvolveu um projeto referente aos índios do Brasil central, sobretudo da família lingüística Jê, para ser realizado por seus alunos de Harvard e, acoplado ao projeto “Estudo comparativo das sociedades indígenas do Brasil”, de Roberto Cardoso de Oliveira, por pesquisadores do Museu Nacional.[...]” (p.25)

“[...]Uma das contribuições de alguns desses trabalhos referentes aos Jê e grupos assemelhados foi a averiguação de que a noção de pessoa que mantêm é de fundamental importância para a compreensão de sua estrutura social...” (p.25)

“Nos anos 70, além de continuar o interesse pelos Jê, retoma-se a atenção por mais três áreas, o alto Xingu, o alto rio Negro e Roraima, sendo que as duas primeiras tinham sido estudadas no período anterior, nas suas características mais gerais, por Eduardo Galvão.[...]” (p.25)

“[...]No alto rio Negro, as pesquisas têm incidido principalmente no outro lado da fronteira, na Colômbia, mas são de muita importância para se compreender os índios do lado brasileiro, pois vivem segundo as mesmas duas grandes tradições: a dos índios das florestas (Makú) e a dos índios dos grandes rios (Tukâno Orientais e alguns Aruák).[...]” (p.26)

“Se a década dos 60 foi marcada por uma forte presença de alunos de doutorado norte-americanos, na dos 70 a eles se acrescentaram ingleses e franceses. [...]” (p.26)

“Os estudos de totalidades socioculturais indígenas mostram, neste período, uma tendência a passar do funcionalismo ou do estrutural-funcionalismo para uma abordagem mais estruturalista ou influenciada pela etnociência, dando importância, variável segundo os casos, às classificações mantidas, conscientemente ou não, pelos próprios índios. [...]” (p.26)

Mitologias E Ritual Como Sistemas Ativos

“Mas foi sem dúvida Claude Lévi-Strauss, com seus artigos sobre mitos e sobretudo os quatro volumes de suas Mythologiques (Paris, Plon, 1964, 1966, 1968 e 1971), que marcou uma reviravolta nos estudos de mitologia.[...]” (p.27)

“[..]Além de inspirar vários artigos sobre mitos tribais escritos no Brasil, as sendas abertas por Lévi-Strauss permitiram a Roberto da Matta analisar o conto sertanejo de Pedro Malasartes e mesmo, escapando ao âmbito do mito, abordar contos literários de Edgar Alan Poe e Guimarães Rosa. [...]” (p.27)

“Se os mitos indígenas levaram à produção de vários trabalhos, os ritos, que deles não se podem desligar, deram motivo à produção de livros...” (p.27)

“[...]Roberto da Matta tem tomado os ritos como uma porta de entrada para o conhecimento da sociedade brasileira; suas reflexões sobre o assunto estão bem representadas em Carnavais, malandros e heróis (Rio de Janeiro, Zahar, 1979). [...]” (p.27)

“A vitalidade dos ritos e dos mitos talvez se demonstre de maneira mais patente nos movimentos messiânicos. Apesar de seu caráter político, seus adeptos fazem deles participar personagens míticos ou rituais, ou seja, nesses momentos de crise ritos e mitos rompem as molduras em que são normalmente contidos.[...]” (p.28)

Estudos Regionais E Estudos Em Comunidade

“De certa maneira, os chamados “estudos de comunidade” do período anterior, muito criticados, foram substituídos pelos que poderíamos chamar de “estudos regionais”, um termo que não tem a divulgação do primeiro.[...]” (p.28)

“[...]A princípio dava a impressão de se ter fragmentado em um certo número de pesquisas individuais, mas duas áreas ganharam dos pesquisadores um interesse mais permanente: uma foi a zona da mata nordestina, de plantação de cana e produção de açúcar, nos estados de Paraíba, Pernambuco e Alagoas; a outra foi a área constituída pela margem oriental da Amazônia, ou seja, pelo leste do Pará, oeste do Maranhão e norte de Goiás, uma zona afetada por frentes de expansão e pioneiras de caráter diversificado.” (p.28)

“Uma terceira região onde começam a se concentrar pesquisas etnológicas e sociológicas é a constituída pelo leste e o norte de Mato Grosso e que envolve várias instituições e projetos. [...]” (p.29)

“A banda ocidental do Vale do rio São Francisco, na área fronteiriça entre Minas Gerais e Bahia, tem sido alvo de projetos abrigados pela Universidade de Brasília.[...]” (p.29)

“Também como estudo regional pode ser considerado o projeto desenvolvido no interior de Sergipe, a respeito da evolução das relações de trabalho, e que conjuga a pesquisa etnológica com a histórica. [...]” (p.30]

“Por outro lado, já existe uma série de estudos sobre temas específicos desenvolvidos, sem que estejam ligados a projetos mais amplos, em pequenas comunidades.[...]” (p.30)

“[...]Ora, apesar de todos tratarem de comunidades de pescadores, um simples deitar de olhos sobre seus temas nos mostra que poderiam ser incorporados a distintos estudos comparativos, juntamente com trabalhos sobre não-pescadores, sobre diversos assuntos: sistemas de classificação, Antropologia da Saúde, identidade étnica, reprodução social, estratégias de sobrevivência etc.” (p.30)

“A singularidade étnica de certas comunidades rurais também tem sido examinada em algumas pesquisas recentes, que oscilam entre os enfoques culturalista e etnicista. [...]” (p.31)

“Se os estudos de comunidade do período anterior foram objeto de várias apreciações, tanto por parte de alguns de seus realizadores como daqueles que não os achavam adequados para atingir os objetivos a que se propunham, os estudos regionais e os estudos em comunidades não parecem ter até agora suscitado nenhum comentário crítico.” (p.31)

Antropologia Urbana

“Durante a década dos 60 (para época anterior ver também Roger Bastide, 1955a) as pesquisas sobre cidade, a julgar pela bibliografia apresentada por Eunice Ribeiro Durham (1971, pp. 75-80), se concentravam sobre as migrações da área rural para a urbana e sobre diversos problemas referentes às favelas, focalizados segundo os ângulos da marginalidade, participação, urbanização e desenvolvimento, que permitiam integrar resultados de diferentes disciplinas (Durham, 1971, pp. 69-70).[...]” (p.31)

“[...]O tema da migração ainda perdura na passagem para a década seguinte, como é exemplo o trabalho de Cláudia Menezes desenvolvido em Anápolis (A mudança, Rio de Janeiro, Imago; Brasília, INL, 1976).[...]” (p.31)

“Parece haver modificações significativas na Antropologia Urbana ao se passar para a década dos 70. Uma delas é o crescente número de pesquisadores com formação em Etnologia que se ocupam dos fenômenos sociais que se dão no ambiente urbano.[...]” (p.32)

“[...]Além da Umbanda, a atenção se tem voltado para outras religiões de caráter evangélico e proselitista, como o Pentecostalismo, que muito tem se expandido nas áreas urbanas. [...]” (p.32)

“Os trabalhos que tratam das concepções a respeito do corpo, das classificações de doenças, de hábitos alimentares, enfim, de temas que vêm sendo englobados sob o título de Antropologia Médica ou da Saúde, parecem se concentrar em pequenas comunidades rurais, ou pequenas cidades cujos moradores estão voltados para as atividades rurais, ou em certos setores urbanos nos quais se contam muitos migrantes de origem rural.[...]” (p.32)
“[...]Próximo ao campo da Antropologia da Saúde e realizado na cidade, embora valha para um âmbito mais amplo, é a pesquisa sobre o nojo, de José Carlos Rodrigues (Tabu do corpo, Rio de Janeiro, Achiamé, 1979); recentemente o mesmo autor publicou outro trabalho, agora sobre a morte (Tabu da morte, Rio de Janeiro, Achiamé, 1983).[...]” (p.32)

“Boa parte dos trabalhos sobre desviantes, sobre a situação da mulher, envolvem as camadas médias urbanas. É digno de nota, com relação a estas, o estudo dos moradores de um edifício no bairro de Copacabana realizado por Gilberto Velho (A utopia urbana, Rio de Janeiro, Zahar, 1973).[...]” (p.33)

Artes E Artesanato

“A descrição de artefatos foi uma característica dos trabalhos dos etnólogos do começo do século, preocupados que estavam com a elaboração de mapas de distribuição geográfica, que lhes permitissem reconstituir as trajetórias da difusão cultural.[...]” (p.33)

“A Fundação Pró-Memória iniciou um projeto sobre a região Centro-Oeste, a princípio sob a direção de George Zarur, voltando-se primeiramente para coleta e estudo de artefatos entre alguns grupos indígenas da região; posteriormente passou, parece, para o estudo do artesanato na população sertaneja da mesma região.[...]” (p.33-34)

“O interesse dos etnólogos pela música não tem se restringido às sociedades indígenas, como mostram o trabalho de Julia de Almeida Levy sobre a música popular brasileira ou a pesquisa em andamento de Kilza Setti de Castro Lima sobre a música caiçara.” (p.34)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Bibliografia - Geral

CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O que é Isso a que Chamamos de Antropologia Brasileira? In: Sobre o Pensamento Antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1988, pp. 109-128.

PEIRANO, Mariza. A Alteridade em Contexto: a Antropologia como Ciência Social no Brasil. Série Antropologia, Brasília, n. 255, 1999.

MONTERO, Paula. Tendências da pesquisa antropológica no Brasil. In: GROSSI, Miriam; TASSINARI, Antonella; RIAL, Carmen (orgs.) Ensino de Antropologia no Brasil: formação, práticas disciplinares e além-fronteiras, Blumenau: Nova Letras, 2006.

MELATTI, Julio Cezar. Antropologia no Brasil: Um Roteiro. BIB, n. 17, 1984: 3-52.

RUBIM, Christina de R. Um Pedaço de nossa História: historiografia da antropologia brasileira. BIB, Rio de Janeiro, n. 44, 1997, pp. 31-72.